sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A NECESSIDADE DE UM PROTOCOLO DE TRATAMENTO PARA O CÂNCER DA CABEÇA E PESCOÇO.

Otavio Alberto Curioni

Aproximadamente 400 novos casos de câncer de cabeça e pescoço são registrados no Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia do Hospital Heliópolis, SP, a cada ano. A incidência da doença tende a aumentar com a idade e cerca de 70% dos casos estão na faixa etária entre 50 e 60 anos.

As taxas de sobrevida global em cinco anos são variáveis segundo o sítio do tumor. Em geral, pacientes com diagnóstico em estádio precoce da doença tem melhor chance de cura ou maior sobrevida. Entretanto, no nosso meio, a maioria dos pacientes procura recurso médico com doença em estádio avançado e a maior sobrevida é alcançada apenas se o diagnóstico e o tratamento forem estabelecidos o mais rápido possível.

Diretrizes de tratamento para o câncer da cabeça e pescoço em todos os estádios fazem-se necessárias, porém, não dispomos de boas evidências oriundas de estudos randomizados controlados para guiar-nos na proposta terapêutica. A tomada da melhor decisão clínica possível envolve um tipo de integração entre informação científica e modelos científicos, com experiências clínicas e, talvez mais amplamente, compreensão cultural e experiências de vida, pois podem se tratar de pessoas com crenças, vontades e situações diferentes, de modo que apenas um modelo de tomada de decisões que leve em conta o maior número de fatores envolvidos estaria sendo justo com essas pessoas, em pré-determinadas áreas geográficas.

Não é possível simplesmente utilizar uma fórmula, mas deveria ser desenvolvido um senso para considerar o significado das circunstâncias particulares dos pacientes e de suas doenças. Neste sentido, a implantação de diretrizes voltadas para um público alvo específico, com base em metodologia científica associada às vivências pessoais, poderia melhorar os resultados dos pacientes.

O protocolo de tratamento do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia – versão 2010, não visa servir de padrão ouro para os cuidados com câncer da cabeça e pescoço. Os padrões de cuidados são determinados com base em todas as informações clínicas disponíveis para um caso individual e estão sujeitos aos avanços do conhecimento cientifico e tecnológico. Tais recomendações servem para substanciar o julgamento final que deve ser feito por profissionais responsáveis com decisões clinicas relacionadas a procedimento clinico particular ou plano de tratamento. Este julgamento deve ser estabelecido após a discussão das opções com o paciente, considerando-se o diagnóstico e as escolhas de tratamento possíveis.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Real impacto da metástase regional no carcinoma epidermóide do andar inferior da boca.

Abrão Rapoport

No carcinoma epidermóide da cavidade bucal, a presença de linfonodo metastático no pescoço é indicação de comportamento agressivo. De forma esquemática, a instalação da doença metastática depende da capacidade do hospedeiro de confinar a lesão primária, das características primárias e de invasão da neoplasia e da adaptação da célula metastática no tecido alvo.

O objetivo final do tratamento do carcinoma espinocelular da boca é o controle da neoplasia e de sua disseminação regional, levando o paciente a uma maior sobrevida livre de doença. Para que isto ocorra, há que se propiciar maior radicalidade e um campo cirúrgico onde a extensão do mesmo atenda às necessidades oncológicas desta neoplasia maligna. Para tanto, há que se considerar o padrão de metastatização nos pacientes submetidos aos diferentes tipos de esvaziamentos cervicais (radicais, modificados ou eletivos) para o carcinoma epidermóide da boca onde os níveis preferenciais são: nível I (submento e submandibular), nível II (jugular superior), nível III (jugular médio), sendo que os níveis IV (jugular baixo) e V (espinais) são envolvidos em apenas 3% dos pacientes N0 (ausência de linfonodos clínicos metastáticos). Ao fim desta consideração, há que se definirem marcadores anatômicos para estes níveis de disseminação, tais como:

I - acima do hióide.
II - abaixo do ventre posterior do digástrico
III - abaixo da bifurcação da artéria tireoidiana superior
IV - nível da artéria tireoideana superior
V - bordo posterior do músculo esternocleidomastoideo e espinal

Considerando referências anatômicas e dos níveis preferenciais de acometimento dos linfonodos metastáticos, o esvaziamento radical clássico de Crile ficou restrito às neoplasias com envolvimento de todos os níveis, sendo progressivamente substituído pelo esvaziamento modificado. Vale considerar que os métodos por imagem (ultra-sonografia com agulha fina, tomografia computadorizada, ressonância magnética e mais recentemente o PET-CT) podem eventualmente subsidiar a propedêutica palpatória, sugerindo diferentes modalidades do esvaziamento.

A partir destas considerações, algumas citações rebatendo estudos comparativos em pacientes T1 N0 M0, revelam taxas de recidiva iguais nos esvaziados e não esvaziados, ocorrendo diferenças significativas no pacientes T2, T3, T4 N0 M0. Nestes pacientes, apesar da sobrevida global ser igual, a sobrevida livre de doença é maior nos pacientes que foram tratados cirurgicamente através dos diferentes esvaziamentos cervicais, o que nos leva a considerar um eventual estadiamento biológico.

Quanto ao tratamento do câncer de boca para os casos N0, vários autores concluem que os diferentes tipos de esvaziamentos são equivalentes na avaliação das recidivas fora do campo cirúrgico, e que a quimioterapia e a radioterapia pós-operatória não modificam a sobrevida livre de doença. Isto permite afirmar que, apesar dos avanços na seleção de agentes quimioterápicos com sucesso inconteste em algumas áreas, no carcinoma epidermóide avançado de boca, isto não ocorre.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Imagem com FDG-PET consegue predizer evolução no câncer de cabeça e pescoço.

Ricardo Pires de Souza

No congresso “JOINT ECCO 15 e 34th ESMO” realizado em Berlim, de 20 a 24 de setembro de 2009, Farrag e colaboradores apresentaram, sob a forma de pôster (n0 8523), os resultados da avaliação do FDG-PET na predição da evolução de 58 pacientes com câncer de cabeça e pescoço, submetidos ao exame antes do tratamento radioterápico, com ou sem quimioterapia.

No resumo, publicado no European Journal of Cancer (EJC, vol. 7, n.2, p. 477), os autores descreveram um valor de corte para a medida semi-quantitativa do SUVmax, índice que traduz a parte metabolicamente mais ativa do tumor. O valor de corte de 7,92 no SUVmax separou os pacientes em dois grupos: um com SUVmax alto e outro baixo. A sobrevida global em três anos foi de 80%, no sub-grupo com SUVmax baixo contra 54% no outro grupo, enquanto que a sobrevida livre de doença foi de 83% contra 41% entre os grupos, com melhor evolução no grupo com valor baixo. Os pacientes que morreram apresentaram um valor médio de SUVmax de 9,16 e os que sobreviveram, uma média de 7,32. Em análise multivariada o SUVmax se mostrou como o único fator significante na determinação da evolução dos pacientes.

Devido ao número limitado de participantes, os próprios autores sugerem novo estudo com aumento da casuística para definir com maior eficácia o papel deste valor de corte do SUVmax. Se de fato for possível correlacionar a atividade metabólica dos tumores de cabeça e pescoço e a medida do SUVmax com a evolução dos pacientes, em tratamentos não cirúrgicos (e por que não também nos casos cirúrgicos?), os terapeutas passarão a ter um parâmetro prognóstico valioso. No entanto, outras evidências científicas devem ser apresentadas antes que este fato possa ser aceito integralmente.