terça-feira, 5 de janeiro de 2010

CONTRIBUIÇÃO DA AVALIAÇÃO VIDEOFLUOROSCÓPICA DA DEGLUTIÇÃO NO PLANEJAMENTO TERAPÊUTICO DAS DISFAGIAS OROFARÍNGEAS.

Ana Paula Brandão Barros

A deglutição envolve estruturas com diferentes funções. É uma função vital, e que se alterada pode acarretar diversos problemas para o indivíduo. Cinco são as fases que compõe a fisiologia da deglutição (antecipatória, preparatória, oral, faríngea e esofágica). Por ser uma função altamente complexa, tanto a avaliação como o diagnóstico requerem um conhecimento especializado da anatomia das estruturas envolvidas e da neurofisiologia da deglutição. Sabe-se que qualquer alteração que comprometa a correta seqüência fisiológica do transporte do bolo alimentar da boca até a entrada no estômago pode ser considerada disfagia.

É evidente a evolução na área da disfagia nas duas últimas décadas. A disfagia foi considerada e citada por muito tempo simplesmente como um sintoma de diversas alterações. Porém, o conceito foi ampliado e se tornou além de um sintoma, também uma alteração que atraiu a atenção de diversas especialidades, devido ao seu impacto na vida dos pacientes.

A evolução tecnológica permite a ciência evoluir global e especificamente proporcionando uma intervenção de melhor qualidade. E em relação à disfagia, por anos a avaliação clínica embasou o diagnóstico e a terapêutica, porém, já é sabido nos dias atuais que em muitos casos a avaliação clínica não é suficiente para um diagnóstico e tratamento adequado. Os limites da avaliação clínica foram apontados por meio da realização da videofluoroscopia da deglutição, exame considerado complementar à clínica da deglutição.

A videofluoroscopia da deglutição também chamada de videodeglutograma ou deglutição com bário modificado é uma avaliação completa no que diz respeito à visibilidade de todas as estruturas e fases da deglutição. É um exame que consiste em uma imagem radiológica dinâmica registrada em fita de vídeo ou DVD.

A indicação deste exame ultrapassa o objetivo diagnóstico e também contribui para o entendimento do grau das alterações encontradas e sua respectiva etiologia, o que fortalece o planejamento terapêutico, que passa a ser baseado em imagem funcional. Tamanhas são a importância e a qualidade das informações captadas por meio deste exame que eu questiono o conceito de complementaridade à avaliação clínica.

A principal indicação para a realização da videofluoroscopia, do ponto de vista fonoaudiológico, é a necessidade da descrição detalhada da fase faríngea da deglutição. Observar todo o trajeto do bolo alimentar e compreender a causa e a repercussão da alteração diagnosticada é sem dúvida a indicação primária para um diagnóstico preciso e um planejamento terapêutico mais focado.

Profissionais especializados nesta avaliação utilizam o momento do exame para um arsenal de perguntas e estratégias, como provas terapêuticas, para uma intervenção focada. A adaptação de consistências, quantidades, viscosidade, temperatura, posturas e manobras de proteção e limpeza podem e devem ser avaliadas durante o exame, desde que, o paciente não seja exposto por muito tempo à radiação.

Se o avaliador tiver amplo conhecimento na área é possível fazer as correlações imediatas dos sinais observados, das queixas referidas e da provável alteração que acarreta este quadro, para se testar com segurança, as estratégias selecionadas e verificar se as mesmas são eficazes para o planejamento terapêutico.

A avaliação videofluoroscópica da deglutição pode ser realizada e interpretada de acordo com a observação desde a captação do bolo até a entrada dele no estômago. E o laudo do exame deve descrever as alterações da motilidade orofaríngea, a presença da estase e da penetração e/ou aspiração e o grau da alteração de todos estes eventos.

A simples descrição dos achados no exame não oferece material suficiente para a compreensão da causa da alteração e não auxilia no planejamento do tratamento. É necessário que seja compreendido o porquê das alterações. Não basta diagnosticar que o paciente apresenta aspirações durante a deglutição, mas sim compreender se o fator causal é a presença de redução da elevação e anteriorização da laringe, alteração do fechamento glótico, alterações sensoriais e/ou alterações respiratórias, por exemplo.

Alguns protocolos de avaliação e diagnóstico foram testados e publicados com a intenção de padronizar a intervenção. Obviamente todos têm seus aspectos positivos e negativos, o que não tira o valor e a contribuição clínica e científica dos mesmos. A dificuldade na padronização é principalmente baseada na experiência de cada Instituição que tem demanda de diferentes patologias. No Hospital Heliópolis são utilizadas a escala de severidade da disfagia de O’Neil, descrita em 1999, e a escala de penetração e de aspiração de Rosenbek de 1996, para caracterizar os referidos eventos1,2. Apenas nos casos de pacientes que foram submetidos à laringectomia total as escalas acima citadas são inadequadas e para este grupo de pacientes utiliza-se a escala criada por Zerbinatti em 20043.

A videofluoroscopia da deglutição é um excelente exame para a investigação da disfagia que permite ampliar o conhecimento e favorecer diretamente o paciente disfágico no seu tratamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1) O’Neil KH, Purdy M, Falk J, Gallo L. The Dysphagia outcome and severity scale. Dysphagia 14:139-145, 1999.
2) Rosenbek JC, Robbins J, Roecker EB, Coyle JL, Wood JD. A penetration –aspiration scale. Dysphagia. 11:93-98, 1996.
3) Zerbinatti FAB. Avaliação videofluoroscópica da deglutição após laringectomia e faringolaringectomia total [Monografia]. São Paulo: Fundação Antonio Prudente;2004.

Um comentário:

  1. Ana, a vídeofluoroscopia é comumente realizada em nosso meio com alimentos nas consitências líquida, pastosa e sólida ou somente alimentos de consistência pastosa. Qual a justificativa, para a avaliação preconizada em protocolos internacionais, com a utilização somente de líquido - água?

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