sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Carcinoma Diferenciado da Tireóide – Mudança de Paradigma.

Ali Amar

Diante de um nódulo na tireóide, a principal preocupação é o diagnóstico diferencial de uma neoplasia maligna. A punção aspirativa do nódulo, já utilizada por Abulcassis no século X, ainda hoje constitui o principal método complementar no diagnóstico. Este método permitiu, nas últimas décadas do século passado, reduzir com segurança o número de cirurgias entre os pacientes com bócio.

Embora todo conhecimento acumulado tenha se baseado no nódulo palpável, presente em menos de 5% da população, nos últimos anos houve um aumento significativo no diagnóstico de doença subclínica com o amplo uso do exame ultrassonográfico. Ao ultrassom, aproximadamente 50% das pessoas apresentam nódulos tireoideanos. Mas será que a doença subclínica tem o mesmo significado do nódulo palpável?

Vale a pena rever a experiência adquirida no último século. Nos anos 80, os japoneses publicaram uma série de trabalhos sobre o esvaziamento eletivo no câncer diferenciado da tireóide e, para nossa surpresa, um dos carcinomas mais indolentes apresentava os maiores índices de metastatização linfática, próximos a 90% nos carcinomas papilíferos. Ainda mais surpreendente foi o fato de que o esvaziamento cervical não modificava o prognóstico desses pacientes, sendo que apenas uma minoria apresentava metástases linfonodais palpáveis no curso da doença. Assim, o esvaziamento cervical eletivo foi banido do tratamento do câncer diferenciado da tireóide. Será que a doença primária subclínica apresenta o mesmo comportamento observado nas metástases?

Em autópsias foi constatado que aproximadamente 2% da população apresentam carcinomas subclínicos da tireóide, taxa que aumenta substancialmente entre os idosos. A constatação de que esta taxa é muito superior à incidência da doença - aproximadamente 3/100.000 habitantes-, sugere que a maioria dos carcinomas subclínicos permaneça assintomática. Diante destas evidências, parece que a doença subclínica não precisaria de tratamento. Porém, uma vez feito o diagnóstico de carcinoma, a indicação da tireoidectomia é unânime entre os cirurgiões.

A incidência do carcinoma papilífero aumentou na última década, mas a mortalidade permaneceu inalterada. Atualmente desconhecemos o impacto da doença subclínica na incidência e na mortalidade do câncer diferenciado da tireóide. Será que os nódulos impalpáveis devem ser considerados anormais, uma vez que estão presentes em grande parte da população? Embora a morbi-mortalidade do tratamento seja baixa nos centros especializados, a tendência em diagnosticar pacientes com doença subclínica impõe uma reflexão sobre o risco-benefício do tratamento.

Atualmente o câncer da tireóide subclínico deve ser tratado, mas talvez não devesse ser tão procurado, lembrando um provérbio alemão: uma pessoa saudável é uma pessoa mal investigada.

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